PIQUE – ESCONDE

Quem enquanto criança não brincou de “pique-esconde”. Uma brincadeira tão comum entre as crianças. A ideia principal é esconder para não ser achado. Quanto melhor o esconderijo, melhor é a brincadeira. O não ser encontrado trazia desafios ao ponto de “inventar” os esconderijos mais improváveis. Não ser encontrado, fazia com que se arrumasse os esconderijos mais esquisitos possíveis. Às vezes, se ficava escondido não sabe quanto tempo, pois ninguém poderia descobrir. Quanto mais oculto e “invisível” melhor. Se fazia de tudo para não ser encontrado. Aliás, ser encontrado era tido como sem graça. A brincadeira não tinha sentido se fosse descoberto.
Depois de adultos, enganam-se aqueles que pensam que deixamos de brincar de “pique esconde”. Os adultos também brincam de esconder. Eles continuam a procurar esconderijos com vistas a que ninguém consiga encontrá-los. Não ser descoberto tem sido o propósito de vida de muitos. A diferença da brincadeira das crianças para os adultos é que os adultos “brincam” de maneira mais sofisticada. Não é tão rudimentar como as crianças. A maneira dos adultos é mais elaborada, apresenta mais sutilezas, não é tão óbvia e “ingênua” como das crianças. O “pique-esconde” do adulto é cheio de tramas. O esconderijo encontrado pelos adultos, às vezes, é tão sofisticado quem nem mesmo o próprio consegue sair, perdendo-se no próprio esconderijo. E, talvez, a pior derrota, é para si mesmo, quando não se consegue sair do lugar que procurou. Na tentativa de não se descoberto, terminou por perde-se por inteiro. Ao procurar passar despercebido, teve como consequência, o desespero de não consegui ser quem gostaria de ser.
Os esconderijos dos adultos são tão variáveis e imprevisíveis. Adultos se escondem atrás de suas próprias roupas de grife. Tentam esconder a vergonha e a insegurança, por isso, resolvem se vestir de forma imponente. Adultos se escondem atrás de carros e telefones. Estes para serem reconhecidos e apreciados se rendem ao esconderijo da ostentação como se isto fosse suficiente para driblar o caos interior. Adultos se escondem atrás das telas de computador e mídias sociais. O computador ou as mídias sociais se tornam seus “guetos secretos”, verdadeiras fortalezas, onde escondem o que verdadeiramente são. Em contrapartida, são personagens de um filme de quinta categoria. As “selfies” e postagens são miragens, se desfazem como bolhas de sabão. Os adultos se escondem atrás da autopiedade, como vítimas. O nascer para estes foi um erro e assim continuam no esconderijo da vitimização, como se fossem injustiçados a procura de um redentor que possa remover o “horror de viver”.
Os adultos continuam a brincar de “pique esconde” a sua maneira e se utilizam de vários mecanismos para justificar a “brincadeira”. Assim como enquanto crianças, não era possível permanecer escondido por tanto tempo, ainda que quisesse. Uma hora deveria se apresentar… sair do esconderijo, volta à tona. Assim, também o adulto precisa deixar o esconderijo, sair das próprias fortalezas que criou para si, como se fosse uma torre segura. Todo aquele que quiser ficar no esconderijo esta fadado a uma vida de sombras. Aqueles que resolvem sair, ainda que seja difícil, descobrem a beleza do horizonte e podem saborear a vida com mais verdade.
Até a próxima…